Gabeu: O Filho de Solimões que Revoluciona o Sertanejo com Herança Caipira e Toques de “Queernejo”

Gabeu, filho do sertanejo Solimões, lança “Rock Bravo” e redefine o gênero com “queernejo”.

O universo sertanejo, conhecido por suas tradições e narrativas consolidadas, tem sido palco de transformações significativas nas últimas décadas. Impulsionado por movimentos como o feminejo, que abriu espaço para novas vozes femininas, a música sertaneja agora acolhe artistas LGBTQIA+ que trazem suas vivências e influências diversas para o gênero.

Nesse contexto, Gabeu surge como um dos principais nomes do chamado “queernejo”, um movimento que mescla o sertanejo com elementos do pop internacional, eletrônico e funk. Filho de Solimões, da icônica dupla com Rio Negro, Gabeu cresceu imerso na cultura caipira, mas trilhou um caminho próprio até reconciliar sua identidade com as raízes musicais.

Com o lançamento do EP “Rock Bravo”, Gabeu revisita clássicos do sertanejo com uma sonoridade inovadora, combinando viola e guitarra, e reafirma seu compromisso em resgatar a música caipira, ao mesmo tempo em que propõe novas formas de expressão e masculinidade dentro do gênero. Conforme divulgado em entrevista, Gabeu explica que “o meu trabalho é impulsionado por isso, mas também pelo desejo de resgatar a música caipira”.

A infância entre a viola e o pop

Gabeu relata que sua infância foi marcada por uma forte conexão com o ambiente rural e a música sertaneja, influenciada diretamente por seu pai, Solimões. “Crescer com o sertanejo foi muito gostoso. Crescer no interior me proporcionou muitas experiências”, conta o artista.

No entanto, durante a adolescência, Gabeu buscou se afastar do gênero, encontrando refúgio no pop, especialmente em artistas como Lady Gaga. “Eu era uma criança queer e buscava coisas mais excêntricas, exageradas, então eu encontrava isso no sertanejo”, revela. Essa fase de distanciamento, porém, deu lugar a uma reconciliação madura com suas origens musicais.

A relação com o pai, Solimões, é de grande afeto. Em depoimento, Solimões expressou apoio incondicional ao filho: “Quando ele veio conversar comigo, falei: ‘Isso aí eu já percebi, ó, [faz tempo], só não assumi perante a sociedade porque eu não sabia se você ia falar comigo’. Eu não estava preocupado. Não tem nada errado nele”, afirmou.

O “Queernejo” e a reinvenção do sertanejo

Gabeu lançou sua carreira em 2019 com o single “Amor Rural”, que já apresentava uma fusão de country e sertanejo romântico com letras bem-humoradas e cheias de trocadilhos. Seu primeiro álbum, “AGROPOC”, de 2021, rendeu-lhe uma indicação ao Grammy Latino, um marco inédito para o “queernejo”.

O artista destaca que a intenção inicial não era iniciar um movimento, mas sim criar música que dialogasse com sua identidade. “Quando lancei ‘Amor Rural’, não tinha pretensão de iniciar um movimento. Eu só queria fazer uma música que dialogasse comigo, com quem eu sou”, explica.

O “queernejo”, segundo Gabeu, surgiu organicamente, impulsionado pela necessidade de expressar sua autenticidade. Ele abraça o termo, assim como “pocnejo”, mas ressalta que, em essência, é música sertaneja. “Acho muito gostoso trabalhar essas misturas musicais e estéticas: pegar minhas referências sertanejas, country e pop, misturar um pouco de Gaga com um pouco de Milionário”, descreve.

“Rock Bravo” e o resgate da música caipira

O EP “Rock Bravo” representa um mergulho profundo na música caipira, com releituras de clássicos como “Minas Gerais” (Tião Carreiro e Pardinho) e “Telefone Mudo” (Chitãozinho & Xororó). A sonoridade do projeto alterna entre a viola e a guitarra, mesclando o sertanejo com influências do rock dos anos 2000 e do pop que marcou sua adolescência.

Gabeu explica que as escolhas das músicas foram tanto estratégicas quanto pessoais. “Algumas escolhas foram estratégicas, outras puramente pelo meu gosto”, afirma. “Rock Bravo” também inclui uma faixa autoral homônima, que compila referências do universo sertanejo, country e western.

O artista vê o “queernejo” como um desdobramento do feminejo, no sentido de que ambos os movimentos expandiram as narrativas dentro do sertanejo. “As mulheres passaram a contar suas histórias de amor, de sofrência, de chifre, de desilusão, apontando os homens como causadores dessas dores”, observa.

Apesar de reconhecer a riqueza das misturas musicais atuais, como o sertanejo com funk e eletrônico, Gabeu expressa uma carência por maior diversidade narrativa. “Queria ver mais criatividade nas composições, mais sagacidade, mais diversidade de histórias. Em termos de poesia, comparado à música caipira, acho que a gente perdeu muito”, lamenta.

Gabeu se consolida, assim, não apenas como um artista inovador, mas como um agente cultural que, ao revisitar as raízes da música sertaneja com uma perspectiva contemporânea e inclusiva, abre novos caminhos e inspira uma nova geração a se reconectar com a herança caipira.

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Sidney Pereira

Jornalista e músico de São Paulo, apaixonado por desvendar cifras e compartilhar seu conhecimento. Graduado em Jornalismo pela UNIFESP, combina sua habilidade na escrita com sua paixão por violão e piano, proporcionando conteúdo acessível e inspirador para músicos de todos os níveis em seu blog dedicado às artes musicais.
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