Janeiro Branco: A urgência de desacelerar em um mundo que cobra produtividade constante
O início de um novo ano, marcado pelo Janeiro Branco, traz consigo a expectativa de renovação e a busca por novas metas. No entanto, a pressão contemporânea por “começar do zero” e a cultura da pressa podem se tornar gatilhos de estresse e ansiedade, impactando diretamente a saúde mental.
O Brasil já sente os efeitos dessa sobrecarga. O país figura entre as nações mais estressadas, com uma parcela significativa da população relatando o sentimento. Além disso, lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, conforme apontam dados recentes.
Em meio a esse cenário, a psicóloga Leandra Duarte, coordenadora de Saúde, Segurança e Bem-Estar da UFJF, oferece insights sobre como navegar este período de recomeços de forma mais saudável, promovendo um “pacto com a pausa” e estabelecendo metas ancoradas na realidade. As informações são baseadas em reportagem da Tribuna de Minas.
O diagnóstico de um mundo exausto: a sociedade do desempenho
A sensação de “ter que dar conta de tudo” não é isolada, mas um sintoma global. O filósofo Byung-Chul Han, autor de “Sociedade do cansaço”, explica que a sociedade mudou de um modelo de disciplina para um de desempenho. Antes, o imperativo era o “você deve”, agora é o “a gente tem”, gerando uma constante autoexploração.
Essa mentalidade leva à “naturalização da exaustão”, onde estar cansado vira sinônimo de sucesso. Pessoas se orgulham de estarem sempre ocupadas, sem tempo para si. Essa inquietude foi alertada por Friedrich Nietzsche no século XIX, que já previa uma “nova barbárie” por falta de repouso.
Dados alarmantes corroboram essa realidade. Relatório da OMS indica que transtornos mentais afetam mais de um bilhão de pessoas globalmente, sendo a principal causa de incapacidade. No Brasil, a saúde mental é a maior preocupação nacional, superando câncer e doenças infecciosas, segundo pesquisa da Ipsos de 2024.
O resgate do “ócio criativo” e a força da pausa
Em contrapartida a essa cultura da pressa, o Janeiro Branco propõe a escuta interna e as “metas gentis”. O primeiro passo é que a meta parta da realidade, e não do ideal. É preciso considerar o momento de vida, a história pessoal e os recursos físicos e psíquicos disponíveis.
A psicóloga Leandra Duarte enfatiza que somos seres humanos, não máquinas. A pausa não deve ser vista como interrupção da produtividade, mas como uma condição para ela. O ócio, o silêncio e o recolhimento são essenciais para o autoconhecimento e a tomada de decisões conscientes.
“Na verdade, é nesse momento de ócio que é possível dar lugar para que as questões apareçam. Porque, quando a gente está vivendo, não temos tempo para pensar se aquilo é realmente o que queremos”, explica Duarte.
Como estabelecer metas possíveis para um ano mais leve
Para que as promessas de ano novo não se tornem fonte de novo esgotamento, é fundamental mudar o ponto de partida. Construir metas ancoradas no “possível”, em vez de perseguir ideais inatingíveis, é o caminho.
Faça o “pacto com a pausa”: Reserve tempo na agenda para momentos de silêncio e relaxamento. Essa pausa é fundamental para o bem-estar e a produtividade.
Priorize o real sobre o ideal: Ao planejar metas, olhe para sua rotina e suas capacidades atuais. Metas que não cabem no cotidiano tendem a gerar ansiedade.
Abandone a “autoexploração”: Lembre-se de que você não é uma máquina. Reconhecer seus limites ajuda a reorganizar expectativas e a evitar o esgotamento.
Valorize o “possível”: Celebre cada passo dado, mesmo que não seja o ideal. Entender que o “possível” é valioso é crucial para a construção de um caminho sustentável.
Estabeleça limites de conexão: Evite que a lógica do trabalho invada seu tempo de recuperação. Desconecte-se e crie espaço para a escuta interna e o descanso.