A melancolia domina o pop: como Billie Eilish e outros artistas refletem a angústia da juventude nas paradas musicais
Billie Eilish, a aclamada artista de 24 anos, coleciona nove Grammys e feitos históricos, mas sua música, desde o início da carreira, tem sido marcada por uma profunda melancolia. Suas letras exploram temas como saúde mental, angústia e culpa, embaladas por vocais sussurrados, uma fórmula que conquistou o público e se tornou um marco em sua trajetória.
A cantora, que concorre novamente ao Grammy com sua canção “Wildflower”, continua a abordar em suas letras sentimentos de desilusão e mágoas não ditas, evidenciando uma consistência em sua abordagem lírica que se mantém desde a adolescência.
Eilish não está sozinha nessa onda. Artistas emergentes como Olivia Dean, The Marías e Lola Young também exploram em suas músicas temas de inadequação e a dificuldade de se encaixar em expectativas sociais. Essa tendência é confirmada por estudos que analisam o conteúdo lírico das músicas mais populares, conforme informação divulgada pela revista The Economist.
O avanço da “angst” e do desespero nas paradas
Um levantamento da revista The Economist, utilizando dados da plataforma Musixmatch e inteligência artificial, analisou as letras das músicas do top 100 da Billboard nos últimos 25 anos. O estudo revelou um aumento significativo de 13% na proporção de hits associados ao termo “angst” – um misto de ansiedade e inquietação existencial – nas últimas duas décadas.
O “coração partido” também figura em ascensão nos últimos cinco anos. Mais recentemente, após 2020, o “desespero” ganhou força, com cerca de um quarto das músicas na lista da Billboard contendo referências explícitas a esse sofrimento emocional. O sucesso de “Die with a Smile”, de Lady Gaga e Bruno Mars, uma balada melancólica que liderou paradas globais, exemplifica essa tendência.
Pesquisas apontam pop mais negativo e menos complexo
Um estudo acadêmico mais amplo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Viena, analisou mais de 20 mil músicas da Billboard entre 1973 e 2023. A pesquisa concluiu que, ao longo de cinco décadas, o pop se tornou mais negativo, mais estressado e menos complexo. Os pesquisadores utilizaram “palavras de estresse” e algoritmos para analisar a simplicidade das letras.
No entanto, Ségio Molina, compositor e pesquisador, alerta para a simplicidade da metodologia, sugerindo que há mais complexidade nas letras. Ele argumenta que artistas consagrados como os Beatles também possuíam letras simples, mas com riqueza em outros aspectos, como arranjo e impacto emocional. “A música pode ser formalmente simples e ainda assim sofisticada em arranjo, interpretação ou impacto emocional”, afirma Molina.
O reflexo da juventude e a dimensão mercadológica
A estética melancólica se conecta fortemente ao universo adolescente e às redes sociais, refletindo a juventude de uma sociedade onde transtornos de saúde mental, como depressão e ansiedade, afetam um em cada sete jovens, segundo a Organização Mundial da Saúde. A dimensão mercadológica também influencia, com algoritmos que tendem a repetir conteúdos que já agradaram ao público, tornando a experimentação arriscada.
Molina pondera que a tristeza na letra não determina sozinha o efeito da música. Ele cita Bad Bunny, cujo álbum “Debí Tirar Más Fotos” aborda nostalgia e melancolia com o ritmo do reggaeton. “Dá para ser feliz no triste, dançar na angústia alheia”, conclui Molina. “É o que a música pop sempre fez.”