Universo Sertanejo Transforma-se em Plataforma Estratégica para Grandes Marcas e Movimenta Bilhões no Agronegócio Brasileiro
O gênero musical sertanejo deixou de ser apenas entretenimento e se tornou uma poderosa ferramenta de marketing e conexão com o consumidor brasileiro. Empresas de diversos setores, como bebidas, automotivo, financeiro e varejo, estão direcionando investimentos significativos para esse território, que dialoga diretamente com o universo do agronegócio, um dos pilares da economia nacional.
A força do sertanejo é inegável. Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária avançou 11,7% em 2025, alcançando R$ 775,3 bilhões. Paralelamente, o gênero musical é o preferido dos brasileiros, conforme o estudo “Brasil no Espelho”, e artistas como Henrique e Juliano lideram o ranking de mais ouvidos no Spotify pelo segundo ano consecutivo. Essa popularidade se reflete diretamente no mercado de eventos, que se torna um palco privilegiado para as marcas.
O impacto do sertanejo no mercado de eventos é enorme. Rafael Damas, sócio-fundador e diretor-presidente do Grupo R2, destaca que o gênero funciona como uma plataforma de conexão com diferentes perfis de público. “Tem marcas que já conversam com esse segmento e que o público tem adesão e paixão. Mas há também espaço para novos relacionamentos”, afirma. A turnê “Manifesto Musical” da dupla Henrique e Juliano, organizada pelo Grupo R2, é um exemplo do potencial financeiro, projetando dobrar a receita total da empresa em 2026.
O Sertanejo como Plataforma de Conexão e Negócios
O Grupo DVT, por exemplo, tem mais de 50% de seu faturamento atrelado a eventos sertanejos. A companhia coordena, em parceria com a Ambev, o Circuito Sertanejo, que reúne grandes festivais como Expo Londrina e Festa do Peão de Barretos. Em 2025, o circuito atraiu cerca de 2 milhões de pessoas de mais de 2,5 mil cidades, registrando um crescimento médio anual de 25% em receita.
Ludmila Ximenes, chefe comercial e de parcerias do Grupo DVT, ressalta que o modelo integrado facilita a atuação das marcas em diversos pontos de contato com o público. “Hoje, vemos um público mais jovem amplificando a mensagem e um público mais velho convertendo”, explica. Ela também aponta que consumidores acima dos 40 anos concentram a decisão final de compra, representando 30% do público do circuito.
O investimento em comunicação no circuito também aumentou consideravelmente. Gui Marconi, sócio e vice-presidente do DVT, revela que o grupo mais que dobrou o investimento em publicidade, com campanhas em TV, rádio, mobiliário urbano e redes sociais, visando ampliar o alcance e o engajamento.
Marcas Consolidadas e Novas Apostas no Universo Sertanejo
A Brahma, da Ambev, é um exemplo de longevidade e sucesso na estratégia sertaneja, mantendo presença contínua há mais de 40 anos. Leandro Mendonça, diretor de eventos e experiências da Ambev, explica que a estratégia se baseia na construção de associação de longo prazo com o gênero. “Nós buscamos estar nos pontos de contato e de paixão do brasileiro. O sertanejo é um deles, assim como o futebol”, afirma.
Iniciativas como latas temáticas, ações promocionais e ambientação de espaços em eventos reforçam a associação direta entre a marca Brahma e o universo sertanejo. Essa conexão com o dia a dia das pessoas fortalece o vínculo com o consumidor, tornando a marca parte da experiência.
A Ipiranga também adota essa estratégia, patrocinando o Circuito Sertanejo desde 2024 e relacionando sua atuação ao deslocamento do público até os eventos. Júlio Sattamini, vice-presidente de marketing e desenvolvimento de negócios da Ipiranga, destaca que os postos de combustível se tornam paradas importantes nesse trajeto. A empresa registrou mais de 3,3 milhões de visualizações em conteúdos relacionados às ações no circuito em 2025 e um crescimento de 36% nas vendas de combustíveis aditivados durante as ativações em Barretos.
Setor Automotivo e Financeiro Abraçam o Sertanejo
No setor automotivo, a Volkswagen mantém uma parceria de 31 anos com a Festa do Peão de Barretos e participa de feiras agropecuárias em todo o país. Livia Kinoshita, diretora de marketing da Volkswagen do Brasil, considera o universo sertanejo um caminho estratégico para a marca, onde “cultura, estilo de vida e produto se encontram de forma orgânica e relevante”.
Em 2025, a Volkswagen vendeu cerca de 5 mil veículos em feiras agropecuárias. A série especial Amarok Barretos 70 anos teve 200 unidades vendidas em menos de 24 horas. A empresa pretende expandir ainda mais sua atuação neste ano.
O sistema de cooperativas Sicoob também tem investido no gênero. Cláudio Halley, superintendente de estratégia e gestão do Sicoob, explica que buscam ligar o patrocínio de eventos à necessidade de ampliar o conhecimento sobre o cooperativismo. “O cooperativismo financeiro ainda não é totalmente popularizado no Brasil. Nosso desafio passa por explicar e educar o público”, diz.
O Sicoob participou da novela “Terra e Paixão”, da TV Globo, para inserir o modelo de forma mais próxima ao público. Atualmente, o universo sertanejo representa entre 20% e 30% do orçamento de marketing da instituição, evidenciando a relevância do gênero para suas estratégias.
Artistas Sertanejos como Embaixadores de Marcas
Algumas marcas apostam na associação direta com artistas sertanejos. A BRP, dona das marcas Can-Am e Sea-Doo, tem o cantor Luan Santana como embaixador no Brasil desde 2025. Marisse Carvalho, gerente de marketing da BRP para a América Latina, afirma que “precisávamos falar com esse público e mostrar como o produto é usado no dia a dia”.
A BRP também participa de mais de 50 feiras e encontros ligados ao agronegócio em 2025. “O sertanejo ajuda no topo do funil, para gerar reconhecimento. Já os eventos permitem apresentar o produto e suas aplicações na prática”, conclui Carvalho, demonstrando a complementaridade das ações.