A melodia que define o sabor: como a música se tornou um ingrediente essencial na experiência gastronômica
Errado está quem pensa que a música em um restaurante pode ser aleatória. Assim como o menu, o ambiente e o atendimento, a playlist é cuidadosamente pensada para complementar o conceito da casa e guiar a jornada do cliente. Essa estratégia sonora transforma a experiência gastronômica em uma imersão sensorial completa.
No restaurante Pacato, em Belo Horizonte, a música é levada a sério, com o músico Vitor Velloso como um dos sócios. A casa inovou ao criar playlists com músicas autorais e inéditas, compostas e gravadas para sintetizar a proposta de cada menu. Essa abordagem demonstra como a música pode ser uma poderosa ferramenta de storytelling.
Conforme apurado, essa prática de unir música e gastronomia visa criar uma atmosfera envolvente, onde cada nota contribui para a narrativa do local. Restaurantes e bares buscam, cada vez mais, traduzir suas propostas em som, oferecendo aos clientes uma experiência memorável e diferenciada. Essa matéria explora como diversos estabelecimentos utilizam playlists para expressar sua identidade e cativar seu público.
Pacato: Melodias que Nascem dos Menus
No Pacato, a música autoral era a ponte entre o cardápio e o cliente. O sócio Vitor Velloso explica que a ideia era criar uma canção que sintetizasse a proposta de cada menu. O primeiro prato gerou a música “Ser Pacato”, inspirada em Guimarães Rosa, que falava sobre o desafio da serenidade em Minas Gerais. Essa faixa integrava uma playlist com artistas mineiros.
A faixa “Descomeço”, também de Velloso, acompanhou o segundo menu e abordou o tema da maturidade e continuidade de projetos. Diferente da primeira, essa playlist explorou o “lado B” de músicos mineiros, buscando fugir do óbvio. O terceiro menu, focado no Vale do Jequitinhonha, inspirou “Tudo vai renascer”, uma parceria de Paulinho Pedra Azul e Vitor Velloso, que buscava evocar a bucólica atmosfera da região.
Outra homenagem ao Jequitinhonha foi a música “Inhaúmas”, de Vitor com Murilo Antunes, com um caráter nostálgico e ligada ao rio que corta Pedra Azul. A playlist para este cardápio traçou um caminho musical da Bahia até Minas Gerais, encerrando com Milton Nascimento. A última música composta para um menu do Pacato foi “Redenção do tempo”, para um cardápio dedicado ao queijo, abordando o tempo como um componente vivo e orgânico.
Chika e Alguidares: Imersão em Outras Culturas
O bar de coquetéis Chika, também de Vitor Velloso, é inteiramente baseado no estilo musical japonês city pop, popular nos anos 1980. A playlist foi montada para transportar o cliente para uma estética inspirada no Japão daquela década, criando uma atmosfera de “speakeasy”, um bar secreto que busca “sequestrar” o cliente de um ambiente e levá-lo para outro.
Já o restaurante Alguidares, no Bairro Sion, celebra a Bahia com sua decoração vibrante e, claro, sua música. Deusa Prado, proprietária, conta que a seleção prioriza músicas baianas e MPB, mantendo o foco na cultura nordestina. A playlist, tocada em volume moderado, busca oferecer um refúgio calmo para quem chega de um dia agitado.
Amy Wine Bar e Cabernet Butiquim: A Experiência Sonora como Prioridade
O DJ Leandro Rallo, que se vê como um “sommelier musical”, ressalta a importância da música na conexão do cliente com o espaço. No Amy Wine Bar, onde também é sócio, a playlist foca em música eletrônica, escolhida para o público-alvo “moderno, formado por pessoas que prezam pela experiência sonora além da gastronômica”. Rallo destaca que a ordem das músicas é essencial para contar uma história musical, com o BPM aumentando ao longo da noite para mais agito.
Pablo Teixeira, à frente do Cabernet Butiquim e do Rex Bibendi, considera a música inegociável. No Cabernet, são 22 playlists que mesclam ritmos brasileiros, do Caetano Veloso a Marina Sena. Durante o almoço, opta por jazz tranquilo ou lounge, enquanto nos fins de semana, o samba domina o dia e opções mais agitadas a noite. No Rex Bibendi, com um perfil mais de restaurante, a música tende a ser mais tranquila, favorecendo a conversa.
A Música como Pilar da Experiência Gastronômica
A palavra “experiência” tornou-se central na gastronomia, e a música é um de seus pilares fundamentais. Ela soma à ambientação, ao atendimento e ao sabor, proporcionando uma imersão completa. A disponibilidade de playlists em aplicativos como o Spotify permite que os consumidores levem parte dessa atmosfera para casa.
Luís Leão, musicoterapeuta, explica que a escolha musical correta pode melhorar significativamente uma experiência. Embora a comprovação científica direta seja complexa, a musicoterapia demonstra o potencial do som para influenciar percepções. Fatores como o histórico sonoro, o perfil da casa, do dono e do cliente, além da acústica do espaço, são cruciais na elaboração de uma playlist eficaz.
A boa acústica, o ritmo e o volume da música são determinantes. Estudos indicam que ritmos mais lentos incentivam o cliente a permanecer por mais tempo, enquanto músicas mais aceleradas podem impulsionar o consumo rápido. O volume também afeta a percepção, com músicas mais baixas sendo ideais para experiências gastronômicas focadas no sabor.
Até mesmo o marketing se beneficia da música, como no caso da Barilla, que criou playlists no Spotify com o tempo exato de cozimento de suas massas. Essa ação conectou a marca com os clientes de forma criativa e acessível, fortalecendo a comunidade em torno da marca.