O legado de “The Queen is Dead”: 40 anos de um grito contra o establishment
Há quatro décadas, as lojas de discos do Reino Unido foram tomadas por um álbum bombástico. Com a imagem icônica de Alain Delon na capa e o título provocativo “The Queen is Dead” (A Rainha Está Morta), o disco dos Smiths chegou em um momento crucial. A Inglaterra vivia sob o peso da era Margaret Thatcher, com desemprego em alta e greves constantes, enquanto a monarquia parecia desconectada da realidade.
Nesse cenário, Manchester, cidade natal do The Smiths e duramente atingida pela crise econômica, viu nascer um álbum que se tornaria um marco. “The Queen is Dead”, o terceiro trabalho da banda pela Rough Trade, refletiu a tensão da época e apontou caminhos para o futuro da música, desafiando convenções e celebrando a individualidade.
O disco louvava a homossexualidade em uma sociedade conservadora, questionava o patriotismo exacerbado e apresentava um lirismo único na voz de Morrissey. A fusão de rock com música alternativa estabeleceu um padrão que seria replicado e reinventado, consolidando “The Queen is Dead” como fundamental para entender a música britânica das décadas seguintes. Conforme informação divulgada pelo Music Non Stop, o álbum continua sendo um retrato fiel de uma época e um guia prático para o futuro.
A demissão enviada por cartão postal
Um dos episódios mais marcantes durante a gravação de “The Queen is Dead” foi a expulsão do baixista Andy Rourke. Em fevereiro de 1986, Morrissey enviou um cartão postal ao colega comunicando sua saída da banda devido ao vício em heroína. A banda chegou a contar com Craig Gannon como substituto e a realizar alguns shows, mas Johnny Marr interveio e convenceu Morrissey a readmitir Rourke, garantindo a formação clássica.
O sample que gerou disputa judicial
A faixa-título, “The Queen is Dead”, inicia com um sample da canção “Take Me Back to Dear Old Blighty”, interpretada por Cicely Courtneidge no filme “The L-Shaped Room” de 1962. A banda, contudo, esqueceu-se de obter a devida autorização. O uso não licenciado da música resultou em um processo judicial que só foi solucionado em 2017, com o lançamento da versão remasterizada do álbum.
A foto icônica e o ponto turístico inesperado
A imagem dos quatro integrantes do The Smiths em frente ao Salford Lads Club, capturada pelo fotógrafo Stephen Wright em dezembro de 1985, tornou-se uma das mais emblemáticas da história do rock. A foto, tirada de forma espontânea com as roupas do dia a dia, transformou o modesto clube social em Manchester em um ponto de peregrinação para fãs de todo o mundo, demonstrando o poder cultural da banda.
O hit macabro que a gravadora vetou
A letra do refrão de “There Is a Light That Never Goes Out”, com seus versos sobre morrer ao lado de quem se ama em acidentes de ônibus ou caminhão, causou espanto nos executivos da Rough Trade. A gravadora vetou o lançamento da música como single, temendo a repercussão de seu tom sombrio. O que era para ser um sucesso imediato só foi lançado como single seis anos depois, após o fim do The Smiths, tornando-se um dos maiores clássicos da banda.
Vice de Madonna e reconhecimento nos EUA
Na sua estreia, “The Queen is Dead” alcançou o segundo lugar nas paradas britânicas, sendo superado apenas por Madonna e seu álbum “True Blue”. Nos Estados Unidos, o disco obteve um desempenho modesto, chegando à 70ª posição. No entanto, o trabalho foi reconhecido pela RIAA (Recording Industry Association of America) como “Disco do Ano” em 1986, evidenciando seu impacto global.