João Pacífico, o Poeta do Campo, Tem Teatro e Músicas Marcantes no Sertanejo
Um nome fundamental para a música sertaneja, João Pacífico, natural de Cordeirópolis, interior de São Paulo, tem sua obra reverenciada na cidade que o viu nascer. O compositor, que faleceu em 1998, deixou um legado de mais de 1.450 composições, muitas delas gravadas por grandes ícones do gênero.
Suas canções, como “Chico Mulato” e “Cabocla Tereza”, acumulam dezenas de gravações e continuam a tocar corações Brasil afora. A importância de Pacífico para a cultura musical brasileira é inegável, sendo reconhecido como um dos criadores da “toada poética”, um estilo que narra a vida no campo com profunda sensibilidade.
O reconhecimento póstumo se manifesta de diversas formas, incluindo um teatro municipal que leva seu nome e eventos que celebram sua vida e obra. Essa homenagem mantém viva a memória de um artista que soube traduzir a alma caipira em versos e melodias.
O Legado Poético de João Pacífico
João Pacífico nasceu em Cordeirópolis em 5 de agosto de 1909. Sua obra é marcada pela simplicidade e pela riqueza do cotidiano caipira. O pesquisador de música caipira, Walter de Sousa, autor do livro “Moda Inviolada – Uma História da Música Caipira”, destaca a poesia típica de Pacífico, que abordava temas como o doce de cidra e o “Mourão da Porteira”, evocando um sentimento nostálgico.
Pacífico é creditado pela “toada poética”, um gênero narrativo que descreve a vida rural, episódios dramáticos ou sentimentos de melancolia. Essas canções, muitas vezes iniciadas com um prelúdio instrumental na viola e com andamento lento, ganharam destaque por sua capacidade de contar histórias.
Walter de Sousa explica que, em canções como “Chico Mulato” e “Cabocla Tereza”, Pacífico introduzia a história como poesia antes da entrada da toada, uma inovação que conquistou o público e as gravadoras da época, impulsionando ainda mais o gênero sertanejo.
“Cabocla Tereza” e a Análise Crítica da Violência
Uma das composições mais célebres de João Pacífico, “Cabocla Tereza”, surgiu na década de 1940 e aborda a temática do feminicídio, refletindo as complexas relações sociais e a violência contra a mulher daquele período. A música narra a história de um homem que mata Tereza por vingança passional, após ser traído.
Cristina Betioli, professora de Letras da PUC Campinas, contextualiza a canção, apontando a falta de amparo legal para as mulheres na época, que muitas vezes eram submissas e podiam ser mortas sem consequências por seus companheiros. Ela elogia a qualidade poética e métrica da música.
No entanto, Betioli defende que “Cabocla Tereza” deve ser analisada com ponderação, devido à forma como a violência é retratada. “Entendo que a gente não deva abolir, como se fosse assim uma página riscada para ser queimada. Mas, uma vez consideradas como fontes importantes de criação artística e cultural, que sejam criticadas, que haja ponderação, que haja debates em cima”, sugere.
Homenagens e Reconhecimento em Cordeirópolis
A cidade de Cordeirópolis, onde João Pacífico nasceu, mantém viva a memória do compositor. Ele dá nome ao teatro municipal, um importante espaço cultural para apresentações artísticas e eventos. A prefeitura também disponibiliza gratuitamente um livro com suas letras e poesias.
Desde 2018, a cidade celebra o Dia Municipal da Música Sertaneja em 5 de agosto, data de nascimento de Pacífico. No ano passado, um evento especial marcou a data com exposições, apresentações musicais e recitais de poesia, consolidando a homenagem no calendário oficial do município.
Apesar de ter se mudado de Cordeirópolis na infância, Pacífico sempre se referiu à cidade com orgulho, conforme relatado pelo pesquisador Walter de Sousa. Essa conexão com suas origens reforça o laço entre o artista e sua terra natal.
A Trajetória de um Compositor Visionário
João Pacífico iniciou sua trajetória musical ainda menino em Limeira, tocando bateria em uma orquestra de cinema. Mudou-se para Campinas e, na adolescência, trabalhou em vagões-restaurante da Cia Paulista de Estradas de Ferro, onde foi descoberto pelo poeta Guilherme de Almeida.
Almeida o incentivou a procurar a rádio em São Paulo, onde conheceu Raul Torres, que se tornaria um grande parceiro musical. A partir daí, Pacífico se firmou como compositor, embora tenha enfrentado dificuldades para obter reconhecimento popular, chegando a se aposentar como motorista particular.
Walter de Sousa sugere que a falta de visibilidade pode ter sido influenciada por questões raciais, já que artistas negros que não cantavam samba tinham pouca projeção na época. O reconhecimento mais amplo veio no final de sua vida, após uma participação no programa “Viola, Minha Viola”, com Inezita Barroso.
Esse momento marcou um reencontro com o público e com outros artistas, que passaram a gravar suas composições e a buscar novas parcerias. João Pacífico faleceu em Guararema (SP), aos 89 anos, reconhecido tardiamente como um ícone da música caipira.