Contardo Calligaris: O Psiquiatra Que Se Derreteu Pela Música Sertaneja e Desafiou Preconceitos Musicais

Contardo Calligaris revela paixão secreta pela música sertaneja e defende sua universalidade sentimental, comparando-a ao country americano e citando o filme “2 Filhos de Francisco”.

O renomado psiquiatra Contardo Calligaris compartilhou um aspecto pouco conhecido de sua vida: uma profunda conexão com a música caipira e sertaneja. Essa paixão, que remonta à sua infância na Itália, o acompanhou até sua chegada ao Brasil no final dos anos 1980, onde descobriu a força do sertanejo nacional.

Calligaris relata que, desde jovem, buscava compreender as letras de artistas como Roy Acuff, tentando transcrevê-las para poder cantar junto, para o desespero de sua família. Essa dedicação ao aprendizado musical demonstrava um interesse precoce por melodias que evocavam sentimentos universais.

A influência do cinema western e de ícones como Gene Autry também moldou seu gosto musical. Para Calligaris, o gênero western, assim como a música country, não se resumia a ação, mas sim à jornada, aos desafios do caminho e, principalmente, à saudade. Mais tarde, nomes como Bob Dylan e James Taylor o reconectaram com suas raízes country, consolidando sua admiração por artistas como Willie Nelson.

A Hierarquia Social da Música: Country Aceitável, Sertanejo Vulgar?

Ao se estabelecer no Brasil, Calligaris percebeu uma barreira social em torno da música sertaneja. Ele observou que, enquanto o gosto pelo country americano era amplamente aceito em seus círculos sociais, apreciar o sertanejo nacional era frequentemente rotulado como uma “vulgaridade musical”.

Essa distinção o incomodava, pois ele via nas duplas sertanejas a mesma capacidade de tocar “as mesmas cordas universais do sentimento” que admirava no country americano. Ele discordava dessa hierarquia musical artificial.

Sertanejo Brasileiro: Um Country Próprio Capaz de Triunfar em Nashville

Contardo Calligaris argumenta que o Brasil desenvolveu sua própria vertente da música country, a sertaneja, com potencial para rivalizar com a americana. Ele arrisca dizer que, se as duplas sertanejas cantassem em inglês, “triunfariam em Nashville como triunfam em Barretos”.

Segundo o psiquiatra, as razões para essa força musical residem na dimensão e diversidade do território brasileiro, no passado bandeirante, na jornada do imigrante e na intensa mobilidade geográfica e social decorrente da urbanização. Esses fatores criam um repertório temático rico, que encontrou no Brasil um “gênio musical” singular.

“2 Filhos de Francisco”: A Essência Country na História Sertaneja

Para reforçar seu ponto de vista, Calligaris cita o filme “2 Filhos de Francisco” como um exemplo esplêndido da essência country presente na música sertaneja. Ele descreve a história de Zezé di Camargo e Luciano como a “quinta-essência do espírito country”.

O filme retrata temas universais como a saudade da infância idealizada, a música como consolo em meio à dureza da vida, a estranheza do encontro com a cidade, a dor da mudança, a errância e a força dos laços familiares. São temas recorrentes no country americano.

O Poder do Desejo e a Paixão Pela Música

Calligaris também aborda a importância do desejo paterno na trajetória dos filhos, exemplificando com o pai de Zezé e Luciano. Ele compara essa dedicação à de Leopold Mozart, pai de Wolfgang Amadeus Mozart, ressaltando que Francisco, pai da dupla sertaneja, fez sacrifícios imensos para proporcionar um violão e uma sanfona aos filhos.

Ele pondera sobre a “loucura” desse desejo paterno, mas conclui que a capacidade de transmitir paixão e desejo aos filhos é um dom valioso. Apesar de o desejo intenso não garantir o sucesso, ele oferece uma razão poderosa para buscar “doidamente” a realização de um sonho, evitando a culpa de não ter ousado viver de acordo com a própria vontade.

A reflexão de Contardo Calligaris, divulgada originalmente em setembro de 2005 e republicada como parte das comemorações de 105 anos da Folha de S.Paulo em fevereiro de 2026, desafia preconceitos e celebra a riqueza e a universalidade da música sertaneja, equiparando-a a seus congêneres internacionais.

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Sidney Pereira

Jornalista e músico de São Paulo, apaixonado por desvendar cifras e compartilhar seu conhecimento. Graduado em Jornalismo pela UNIFESP, combina sua habilidade na escrita com sua paixão por violão e piano, proporcionando conteúdo acessível e inspirador para músicos de todos os níveis em seu blog dedicado às artes musicais.
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