A realidade é o que desejamos que seja: Dua Lipa na política brasileira e a fuga literária
Imagine a cena: Dua Lipa, a estrela pop britânica, assumindo a presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados. Parece um delírio, mas a proposta, apresentada de forma satírica, levanta questões sobre a percepção da realidade no Brasil atual. A ideia vai além, sugerindo a cantora para o STF e até para a Presidência da República, sem esquecer o posto de rainha de bateria.
Essa escalada do absurdo, onde a nacionalidade e a eleição se tornam irrelevantes, é um reflexo do que o autor Alexandre Soares Silva chama de “nonsense da atualidade”. Diante desse cenário, surge a necessidade do “evasionismo”, a arte de escapar e se refugiar em outros mundos.
É nesse contexto que a obra de Alexandre Soares Silva se apresenta como um convite à fuga. Conforme a crítica, se o Brasil fosse um país sério, o autor seria reconhecido como um dos maiores escritores contemporâneos. A literatura evasionista, com raízes em clássicos como Dom Quixote e o realismo mágico, encontra em Soares Silva um mestre moderno. Acompanhe a jornada por cidades imaginárias e personagens inesquecíveis.
A cidade de Quaresmeiras Roxas e a magia dos romances de Soares Silva
A obra de Alexandre Soares Silva nos transporta para “Quaresmeiras Roxas”, uma cidade paradisíaca que serve de cenário para romances como A Coisa Não-Deus, Morte e Vida Celestina e A Vida é uma Festa. Esses livros, lançados entre 2004 e 2013, exploram narrativas oníricas e personagens marcantes.
O universo literário se expande com obras como Totolino, de 2022, e personagens que prometem retornar, como Lilico, de Feérico Luar no Copacabana Palace, publicado em 2024. Cada livro é um convite para se perder em histórias que desafiam a lógica e encantam pela originalidade.
Os contos que revelam a genialidade e o vazio existencial
Para muitos, o ápice da escrita de Soares Silva reside em seus contos. A coletânea O Homem que Lia os Seus Próprios Pensamentos, de 2021, traz narrativas que poderiam figurar em qualquer antologia de destaque da língua portuguesa.
No entanto, o autor eleva ainda mais o nível em seu livro mais recente, Arcanos Menores. O conto “O Vigilante Rodoviário Contra o Cerrado” é um exemplo ímpar, repleto de referências a Borges, ao minotauro, Ary Barroso e ao próprio vigilante. Mesmo para quem busca a “fuga da cultura ocidental”, a diversão e o estremecimento com o “infinito vazio” simbolizado pelo cerrado são garantidos.
O fim da fuga: Dua Lipa e o retorno à melancolia da realidade
É na intersecção entre a diversão do escapismo e a “realidade melancólica” que reside o brilho de Os Arcanos Menores. A coletânea, que possui uma unidade surpreendente, culmina no conto “Dua Lipa”.
Neste conto final, o autor, de forma magistral, nos despede da leitura, devolvendo-nos à “tristeza da nossa realidade diária”. Esse retorno confere maior sentido e valor aos absurdos, “maluquices” e ao humor que permeiam toda a obra, mostrando que a fuga literária, ao final, nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos.
A crítica observa que, se Alexandre Soares Silva fosse “cruel ou maldoso”, o final do pedido do Sr. Rogério poderia ter sido diferente, com a chegada de Dua Lipa em vez da presidente da Comissão da Mulher. A obra, contudo, demonstra uma sensibilidade que transforma o absurdo em reflexão.