O rock, que um dia foi sinônimo de rebeldia e juventude, parece ter se tornado um refúgio para os mais velhos. Mas será que a culpa é do tempo, ou dos próprios roqueiros que se fecham para novas sonoridades?
A cena é quase um clichê: em shows de rock, especialmente os de heavy metal, o público predominante é composto por senhores de cabelos brancos e barbas grisalhas, que relembram com nostalgia as edições históricas de festivais como o Rock in Rio de 1985.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em outros países, a falta de renovação no gênero leva à repetição de atrações consagradas, que, embora ainda lotem estádios, já não possuem a mesma vitalidade de outrora. O problema se agrava com a aposentadoria ou o cancelamento de shows de bandas veteranas.
A jornalista Adriana de Barros relata um diálogo ouvido no banheiro feminino do Morumbis, após um show do AC/DC, que ilustra bem essa percepção. Uma jovem comentou: “Nossa, só tinha velho neste show”, ao que a outra respondeu: “Mas o que você queria? É show de rock, só velho vai a show de rock”. Conforme Adriana de Barros relata, essa visão, por mais dolorosa que seja, reflete uma realidade palpável.
A Perda do Protagonismo na Mídia e no Showbiz
Há pelo menos três décadas, o rock pesado perdeu seu espaço na mídia e no mainstream, sendo substituído por gêneros como hip hop, funk, sertanejo e reggaeton. Essa escassez de novos ídolos faz com que os festivais do gênero apostem nas mesmas atrações de sempre, que possuem um repertório de hits capazes de lotar grandes casas de espetáculo.
A dificuldade em encontrar substitutos à altura para as lendas do rock se torna um desafio constante. Um exemplo disso foi o cancelamento da vinda do Twisted Sister ao festival Bangers Open Air, por problemas de saúde do vocalista Dee Snider. Em seu lugar, entrou o Arch Enemy, com um som pesado, mas distante da estética divertida do grupo americano.
Novas Sonoridades X Roqueiro Raiz
Bandas atuais como Avenged Sevenfold e System of a Down, que têm feito sucesso, apresentam uma estética musical e lírica que nem sempre dialoga com o roqueiro mais tradicional. Suas letras, muitas vezes interiorizadas e politizadas, diferem do hedonismo e das histórias épicas que marcaram o rock de décadas passadas.
O flerte de novas bandas com o hip hop e a música eletrônica também é visto com ressalva por parte dos fãs mais puristas, que preferem a sonoridade clássica do rock, com guitarras distorcidas e bateria marcante. A recusa em abraçar essas novas influências contribui para o envelhecimento do público.
A Culpa é do Público, que se Recusa a Ouvir o Novo
A falta de interesse em novidades é um dos principais fatores que levam o rock a ser rotulado como “música de velho”. Promotores de shows apontam que, embora existam ótimas e jovens atrações do gênero pesado com potencial para sucesso internacional, no Brasil elas teriam dificuldade em lotar uma casa pequena.
O público nacional, muitas vezes ortodoxo em seus gostos, prefere as mesmas bandas de sempre. Por isso, nomes como Guns N’Roses, Scorpions e Judas Priest continuam lotando turnês pelo país, mesmo que já tenham passado do auge. O processo de renovação se torna, assim, praticamente nulo.
Abrindo os Ouvidos para o Futuro do Rock
Para aqueles que não se contentam com as guitarras envelhecidas, o caminho tem sido migrar para outros gêneros musicais, como o pop, o K-pop, o reggaeton e a dance music, que encontram um público atento e participativo no Brasil. Esses gêneros, por sua vez, bebem em diversas fontes, demonstrando uma constante evolução e fusão de estilos.
O roqueiro que se mantém fiel ao passado perde a oportunidade de descobrir novas atrações dentro do próprio universo do rock. Bandas como Castle Rat, com seu heavy metal medieval, o Deafheaven, que une rock pesado ao som alternativo, e The Night Flight Orchestra, que mistura guitarras distorcidas com pop dos anos 80, são exemplos de sonoridades que fogem do clichê e provam que o rock ainda pode surpreender.
O próprio cronista, que se emocionou com o show do AC/DC, assistiu ao Living Colour e garantiu ingressos para o Rush, demonstra que é possível apreciar a qualidade de artistas consagrados sem fechar as portas para o novo. O som pode ser rotulado como “de velho”, mas a qualidade e a paixão pela música transcendem gerações.