Cena 2K: O Rastro de Inconsistências Seis Meses Após o Caos
A Neo Química Arena, em São Paulo, foi palco da 4ª edição do Cena 2K em novembro de 2025, o que deveria ser o ápice do rap nacional. Contudo, o evento se tornou sinônimo de problemas: atrasos, brigas e o cancelamento abrupto do último dia de shows.
Seis meses depois, a realidade é de contas não pagas. Artistas, fornecedores e o público que adquiriu ingressos ainda aguardam soluções. Dezenas de processos já correm na Justiça, evidenciando a extensão dos prejuízos causados pela organização do festival.
O g1 buscou esclarecimentos com os responsáveis pelo Cena Festival, mas até o fechamento desta matéria, os organizadores não retornaram os contatos. A Bilheteria Digital, plataforma de venda de ingressos, informou ter repassado integralmente os valores arrecadados para a organização, cumprindo suas obrigações como intermediária.
O Legado de um Festival Promissor que Desmoronou
O Cena 2K, que em 2019 trouxe nomes como Quavo e, em 2022, Playboi Carti e Racionais MCs, consolidou-se como um dos principais eventos da cultura hip-hop no Brasil. A mistura de atrações internacionais e nacionais sempre foi um de seus pontos fortes, atraindo grande público e expectativa.
Entretanto, informações nos bastidores já indicavam dificuldades financeiras e desentendimentos com investidores. A Four Even, empresa do ramo sertanejo, teria manifestado descontentamento com o retorno financeiro do festival nos últimos anos, sinalizando problemas futuros.
Mudança de Datas e Primeiros Sinais de Alerta
A primeira grande alteração ocorreu antes mesmo do início do evento. Inicialmente marcado para o final de novembro de 2025, o festival foi antecipado para o dia 21, 22 e 23 do mesmo mês, devido a conflitos de agenda com jogos do Corinthians na Neo Química Arena. Essa mudança gerou insatisfação e pedidos de reembolso, que, segundo relatos, não foram atendidos.
Maria Clara Alencar, que comprou dois ingressos na pré-venda, tentou o reembolso após a alteração de data, mas foi informada que a responsabilidade seria do produtor do evento. O caso, assim como muitos outros, agora segue na Justiça, buscando indenização por danos morais.
Problemas Estruturais e Cancelamentos em Massa
A semana anterior ao festival foi marcada pela perda da parceria com a Bilheteria Digital, um golpe significativo no fluxo de caixa. Além disso, o escritório de advocacia que cuidava das questões jurídicas encerrou o contrato devido a desentendimentos sobre negociações com o rapper Kanye West, cujas falas antissemitas causaram desconforto.
Sem o suporte jurídico, as negociações de cachês e contratos foram feitas de forma informal, via WhatsApp. No primeiro dia do evento, artistas menores relataram cortes de microfone e cancelamentos de última hora, como o de Ryu, The Runner, sem justificativas claras.
Nicole Kirsanoff, que trabalhou na produção, descreveu um cenário de desorganização total, com falta de insumos básicos como pulseiras de acesso e pagamentos atrasados a fornecedores. Ao menos seis artistas não teriam recebido seus cachês integralmente, como é o caso de Yuri Redicopa, que recebeu apenas R$ 700 de um combinado de R$ 15 mil.
O segundo dia do festival foi ainda mais caótico, com artistas anunciando seus horários por conta própria nas redes sociais devido à falta de divulgação oficial. As grandes atrações internacionais, como Young Thug, A$ap Ferg e Oodaredevil, foram canceladas em cima da hora por “motivos internos e externos”. Lil Gotit, por sua vez, declarou que não viria por “razões do festival”.
A noite de sábado foi marcada por uma briga generalizada nos bastidores entre a equipe do rapper Major RD e seguranças, resultando em danos à estrutura da Neo Química Arena e problemas com a administração do local. Major RD relatou ter sido impedido de acessar seu camarim.
O Cancelamento Oficial e a Persistência dos Problemas
O domingo, último dia de shows, começou com incertezas. A falta de pagamento de serviços essenciais, como primeiros socorros e montagem de palcos, gerou dúvidas sobre a realização do evento. Por volta das 13h, a Neo Química Arena emitiu um comunicado oficial informando o cancelamento, após vistoria da Polícia Militar.
A PM constatou a ausência de serviços médicos necessários, contrapartidas obrigatórias da organização do Cena 2K. Nicole Kirsanoff, que ainda aguarda R$ 600 de um cachê de R$ 3 mil, descreveu a situação como “muito confusa” e “bagunçada”, com artistas se apresentando para portões fechados e falta de pagamento para diversos profissionais.
Seis meses após o ocorrido, dezenas de processos pedem o reembolso dos ingressos. O advogado Ícaro Lamas, que representa diversos consumidores, afirma não ter obtido retorno nem do evento, nem da Bilheteria Digital. Ele ressalta que o Código de Defesa do Consumidor garante o direito ao reembolso, ressarcimento de gastos e indenização por danos morais em casos de falha na prestação de serviços.